| NANOTRANSPORTE DE MEDICAMENTOS |
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Uma nanopartícula desenvolvida pelo grupo do
professor Raul Cavalcante Maranhão, na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da
Universidade de São Paulo (FCM-USP), é capaz de levar medicamentos
especificamente a células cancerosas ou a tecidos de órgãos transplantados.
Recentemente, a equipe verificou que a técnica também é eficiente contra a
aterosclerose. “Trata-se de um avanço muito importante, pois
é a primeira vez que se trata o efeito base da aterosclerose. Até agora, a
doença era tratada com remédios para hipertensão – para a desobstrução de vasos
–, que atingem os efeitos mas não a doença”, disse Maranhão à Agência FAPESP.
O pesquisador apresentará os resultados da pesquisa no sábado (28/8), na 25ª
Reunião da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), em Águas
de Lindoia (SP). A pesquisa para criar a partícula nanométrica
começou a tomar corpo em 1995, quando Maranhão iniciou o Projeto Temático “LDL
artificial: um novo método para o tratamento do câncer”, apoiado pela FAPESP. O objetivo era criar uma versão artificial da
LDL (lipoproteína de baixa densidade, em inglês), partícula que concentra mais
de 70% do colesterol presente no sangue humano. O resultado foi a LDE, uma LDL
artificial composta de um envoltório de fosfolípedes e um núcleo de colesterol. Na circulação, a LDE recebe partes proteicas
das liproproteínas naturais ao se chocar com elas. Uma dessas partes é a Apo E,
que passa a fazer parte da LDE. “Com ela, a LDE começou a se ligar ao receptor
com muito mais força do que a própria LDL, porque a Apo E tem muito mais
afinidade com o receptor”, explicou Maranhão. A aplicação prática da pesquisa teve início
quando o professor da USP conheceu o trabalho ganhador do prêmio Nobel de
Fisiologia ou Medicina de 1995, conquistado pelos norte-americanos Michael
Stuart Brown e Joseph Goldstein. Os dois haviam descoberto o receptor da LDL,
mas a parte do trabalho que mais interessou a Maranhão foi a que mostrava que
esse receptor é muito aumentado em células neoplásicas, as afetadas pelo
câncer. Essa superexpressão dos receptores foi percebida pela primeira vez na
leucemia. A explicação disso seria que a célula
cancerosa se divide com muito mais velocidade do que as células comuns. Para
isso, ela precisa duplicar todo o seu estoque de membranas, que são formadas
basicamente de lípides. A maneira mais fácil de a célula obter essa
matéria-prima é pelo aumento no número de receptores para o LDL, que carregam o
colesterol. “Com essa descoberta, decidimos injetar uma
droga na LDE para que atingisse diretamente o câncer, pois as demais células
têm muito poucos receptores para a proteína”, contou o professor, afirmando que
essa manobra seria impossível de ser feita com a LDL. Em alguns testes clínicos, as nanopartículas
LDE foram marcadas, o que permitiu a visualização de sua trajetória pelo
organismo. O experimento acabou confirmando que ela se concentrava nos sítios
de medula óssea afetados pela leucemia. O resultado é uma quimioterapia com
toxicidade extremamente reduzida, que chega a ser até dez vezes menor na
comparação com outras drogas. A quimioterapia tem como um dos principais
obstáculos os efeitos colaterais provocados pela toxicidade dos medicamentos. A seletividade do alvo conquistada com a
nanotecnologia permitiu o combate às células doentes preservando as demais de
uma exposição exagerada ao medicamento. Esse efeito foi observado também em
outros tipos de cânceres, como ginecológico, mieloma múltiplo, mamário e
ovariano. Essa etapa foi desenvolvida no âmbito de
outro Projeto Temático FAPESP, intitulado “Lipoproteínas artificiais na
investigação das dislipidemias e no tratamento do câncer”, conduzido de 2000 a
2004. Veículo para aterosclerose Ao aplicar a LDE em coelhos, Maranhão
percebeu que a nanopartícula também se concentrava nas lesões ateroscleróticas
dos animais. “A aterosclerose é um processo proliferativo desencadeado por uma
doença inflamatória e, na proliferação, o número de receptores para LDL é
aumentado”, explicou. Os resultados mostraram que a mesma LDE pode
ser utilizada como veículo para levar drogas específicas contra a
aterosclerose. Em testes feitos em coelhos, a técnica conseguiu reduzir a
doença em até 60%. O sucesso da nanopartícula fez com que
Maranhão recebesse um convite para estender as aplicações da técnica. A
iniciativa foi do diretor do Instituto do Coração da USP (Incor), Noedir Stolf,
que havia desenvolvido técnicas de transplantes de coração em coelhos. Nos animais, Stolf conseguiu implantar um
coração sem retirar o órgão original. Com os dois corações trabalhando em
paralelo, Maranhão testou a LDE e notou que ela se concentrava quatro vezes
mais no órgão transplantado em comparação com o original. Mais uma vez, um
processo inflamatório, provocado pela rejeição, estava aumentando os receptores
para a nanopartícula. Além da rejeição há uma aterosclerose
acelerada conhecida por doença coronária do transplante, que afeta boa parte de
transplantados cardíacos após cinco anos com o novo órgão. Trata-se de um
processo de obstrução dos vasos e para o qual muitas vezes o único tratamento é
um novo transplante. Nos coelhos, tanto a rejeição como a
obstrução das artérias foram tratadas com sucesso por meio da LDE. Segundo
Maranhão, os resultados serão publicados em breve no periódico Journal of
Thoraxic and Cardiovascular Surgery, que já aceitou o trabalho. Para o professor titular da USP, que agora
desenvolve o seu terceiro Projeto Temático com apoio FAPESP, a LDE faz parte de
uma nova categoria de medicamentos baseados na nanotecnologia e que podem abrir
inúmeras aplicações na medicina. “A ideia é ter uma nova classe de drogas para combater a aterosclerose cerebral, a periférica, doenças cardíacas, cânceres e muitas outras”, indicou.
Por Fabio
Reynol, de Águas de Lindoia (SP)
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