O melanoma é um câncer de pele potencialmente letal, capaz de produzir metástases (veja também Linfonodo Sentinela). Ele pode se originar em pele normal, porém, na maioria das vezes origina-se sobre uma pinta já existente. Algumas características destas pintas que aumentam as chances delas estarem se transformando em melanoma podem ser avaliadas pela chamada regra do ABCD: A - Assimetria.B - Bordas ou limites que se tornam irregulares, mal definidos em relação à pele vizinha.C - Cor que se altera, de marrom para negro, por variação de tonalidade ou aparecimento de áreas negras, brancas, azuis ou vermelhas.D - Diâmetro - igual ou maior que 0,6 cm ou aumento de tamanho em diâmetro, extensão ou volume.
Alterações da pinta como: aparecimento de dor, coceira, diminuição do tamanho ou desaparecimento total da pinta, manchas ou pontos escuros em sua volta, sangramento ou pequenas feridas na sua superfície também devem ser valorizadas. É importante que toda a pele seja observada cuidadosamente. Examine o seu corpo de frente, de costas, dos lados, utilize espelhos para possibilitar a melhor visualização. Não esqueça regiões plantares, dos genitais e couro cabeludo. Hoje a avaliação clínica de uma pinta pode ser complementada com a dermatoscopia, que permite diagnosticar cerca de 90% dos casos de melanoma.
O melanoma tem se apresentado de forma relativamente precoce em pessoas com idade entre 30-40 anos. A detecção precoce e o tratamento cirúrgico adequados podem curar mais de 90% dos pacientes. Evidências sugerem que evitar exposição ao sol, especialmente nas crianças e adolescentes, pode reduzir a incidência de melanoma cutâneo. A exposição ao sol pode ser evitada mudando-se hábitos que exigem exposição ao sol, usando roupas protetoras e protetores solares.
IMPORTANTE Os protetores solares não substituem a não exposição ao sol.
MEDIDAS PARA REDUÇÃO DE RISCOS
Evite a exposição ao sol das 10:00h às 16:00h.
Use roupas e chapéu para se proteger do sol.
Não utilize câmaras de UV para se bronzear.
Proteja as crianças. Não use protetor solar em crianças abaixo de 6 meses. Estas devem ter exposição solar limitada.
Faça auto-exame regular da pele, usando espelhos e procure médico caso apareça ferida que não cicatriza, mancha escura ou nódulo na pele duradouros, ou alterações em pintas já existentes (aumento, modificação da cor, prurido, sangramento).
Essa mancha se trata de um melanoma.
As características importantes observadas nessa mancha são a assimetria da lesão(A), os limites(bordas) não nítidos em relação à pele vizinha(B), a presença de várias colorações(vermelho, preto, branco e tons)(C) e o tamanho(embora não haja medida, a lesão aparenta ter mais de 6mm)(D). Essas quatro letras em negrito compõem a regra do ABCD: A-> Assimetria B-> Bordas irregulares C-> Cor que se altera (marrom para preto, por exemplo) D-> Diâmetro maior ou igual a 6 mm. Regra esta utilizada para avaliação de lesões pigmentadas e diagnóstico de melanoma.
Não pode ser realizado clareamento na lesão por se tratar de lesão pigmentada; o clareamento de lesão pigmentada, além de favorecer a ocorrência de mutações, colaborando para a malignização destas lesões, ainda pode atrapalhar o exame anátomo-patológico. A conduta médica para esta lesão consiste na excisão com margem pequena (1 a2 mm) de pele normal e encaminhamento da mesma para exame anátomo-patológico.
Daniel Arcuschin de Oliveira - Acadêmico de Medicina. Faculdade de Medicina Anhembi-Morumbi.
BIÓPSIA DE LINFONDO
SENTINELA NO MELANOMA CUTÂNEO
O
tratamento cirúrgico de linfonodos regionais em pacientes com melanoma com
doença localizada (Estádios I e II) continua controverso. A questão central
está em definir quais pacientes são candidatos apropriados para linfadenectomia
completa.
Na maioria das vezes, os linfonodos
são o primeiro sítio de disseminação inicial do MC. A progressão do melanoma
segue uma ordem natural na grande maioria dos casos. A biópsia de linfonodo
sentinela é, sem dúvida, um dos mais importantes avanços da cirurgia oncológica
atual. O racional desta técnica se baseia no conceito do LS como sendo o
primeiro linfonodo para o qual drena o tumor primário (conceito anatômico e
funcional). Já melhor estabelecida para a abordagem do MC localizado, a BLS já
esta sendo aplicada para outros tumores de disseminão inicial preferencialmente
por via linfática, como o adenocarcinoma de mama, os carcinomas de cabeça e
pescoço, de pênis e de vulva.
A
BLS está indicada para os pacientes portadores de MC com doença localizada, ou
seja, sem evidência clínica de metástase tanto loco-regional como à distância.
Está ainda reservada aos pacientes cuja lesão primária indique risco de
ocorrência de metástase linfonodal, ou seja, com melanoma de espessura de
Breslow maior que 1,0 mm ou embora tenha espessura menor que 1,0 mm, apresente
outros achados anátomo-patológicos de risco, tais como: Clark IV ou V,
ulceração, sinais importantes de regressão, mitoses, fase de crescimento
vertical e invasão linfática.
Embora
não esteja rotineiramente indicada para pacientes portadores de melanoma com
Breslow acima de 4 mm, vários autores têm indicado a BLS para estes pacientes,
observando que mesmo neste subgrupo existe uma pior sobrevida para os pacientes
com LS comprometido, podendo aquele procedimento orientar terapia adjuvante e
linfadenectomia.
Os
novos procedimentos de mapeamento linfático e BLS trouxeram uma luz para uma
nova abordagem dos pacientes portadores de MC localizado, no mínimo lógica e
promissora. Sob o ponto de vista da prática clínica atual, o procedimento de
BLS põe fim à grande controvérsia entre realizar linfadenectomia eletiva ou
apenas observar estes pacientes. Surge outro conceito de linfadenectomia, ou
seja a linfadenectoma seletiva, aquela realizada para os pacientes onde o LS se
mostrou comprometido.
A
BLS define quais pacientes são canditados apropriados para linfadenectomia
completa (aqueles com doença no LS) reservando para seguimento os pacientes com
LS sem doença. Compreende 3 etapas fundamentais: a.) linfocintilografia
pré-operatória (LPO); b.) biópsia do LS propriamente dita (utilizando
mapeamento linfático com corante vital e detecção gama intra-operatória) e c.)
exame anátomo-patológico do LS.
Linfocintilografia para biópsia de
linfonodo sentinela
A
linfocintilografia pré-operatória é exame fundamental e básico para o
procedimento de BLS (figura 9.1).
Fig.9.1 – Linfocintilografia.
Melanoma de dorso.
Linfonodo sentinela
inguinal direito.
Identifica
as bases linfonodais de risco para doença metastática onde deve ser feita a
pesquisa do LS, notadamente para os tumores de drenagem ambígua, como os de
linha média. Além disto, a linfocintilografia identifica metástases “em
trânsito”, que ocorre em cerca de 5% desta população de pacientes. Estas
metástases “em trânsito” são linfonodos e, por definicção, são linfonodos
sentinelas e devem ser excisados. Tem se mostrado indispensável em predizer as
regiões linfáticas de risco para micrometástase em pacientes portadores de
melanoma cutâneo.
A
linfocintilografia serve como um mapa para o planejamento do cirurgião: 1.)
Identifica todas as regiões linfáticas de risco para doença metastática,
inclusive regiões não esperadas como retroperitônio e subescapular; 2.)
Identifica metástase em trânsito que passa a ser LS; 3.) Identifica a
localização do LS dentro da região linfática; 4.) Identifica quantos LS estão
envolvidos naquela drenagem e, portanto, devem ser retirados.
Na
linfocintilografia injetam-se partículas radioativas em volta do tumor/cicatriz
para identificar os linfonodos que recebem drenagem linfática daquele tumor.
Radiofármaco
O
isótopo mais utilizado é o Tecnécio (99mTc), de uso rotineiro na maior parte
dos procedimentos de medicina nuclear por apresentar energia ideal para a
detecção através de câmeras de cintilação (140 KeV). Apresenta meia vida física
curta (6 horas) que resulta em baixas doses de exposição para os pacientes,
apresenta emissão apenas de radiação gama, é de fácil disponibilidade e de
baixo custo. Como radiofármacos, várias substâncias são utilizadas, como
enxofre coloidal, albumina humana, fitato e dextran.
Em
nosso meio o dextran 500, um polissacarídeo de alto peso molecular com diâmetro
de 20 nm, é o mais utilizado. Não se têm reações adversas descritas
consequentes ao seu uso. É fornecido comercialmente na forma estéril e
apirogênica pelo IPEN-SP (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - São
Paulo) para uso médico. Outro fármaco que vem sendo usado em nosso meio, com
bons resultados, é o fitato. Aparentemente ele fica mais tempo retido no LS e
passa menos para os linfonodos secundários.
Técnica
Uma
dose de 250 microCuries do radiofármaco é administrada intradérmicamente em 4
regiões, seguindo-se a orientação dos quatro pontos cardeais, bem próximo da
lesão ou da cicatriz nos casos biopsiados, num volume total de 1 ml. As imagens
de sua biodistribuição são realizadas em câmera de cintilação, numa fase
dinâmica que dura de 5 a 10 minutos. Esta fase dinâmica é de extrema
importância, pois define o número de canais linfáticos.
Morton e cols foram os pioneiros desta técnica, tendo-a realizado
inicialmente em gatos, demonstrando dois corante vitais mais efetivos: o lymphazurim
e o azul patenteV, os quais passaram a ser usados clinicamente. Cerca
de 10 minutos após a injeção do corante vital, uma incisão de aproximadamente 2
cm é feita sobre o local marcado pela linfocintilografia pré-operatória,
corrigido pela detecção gama intra-operatória, de tal forma que a cicatriz
possa ser incorporada numa posterior linfadenectomia completa caso a mesma
venha a ser necessária. Procede-se ao descolamento de retalhos de pele
objetivando visualizar os vasos linfáticos aferentes. Através de dissecção
cuidadosa, os linfáticos aferentes são identificados, dissecados e seguidos até
se encontrar o LS que apresenta coloração azul-esverdeada.
Os
vasos linfáticos devem ser ligados e não cauterizados, diminuindo assim as
chances de seroma no pós-operatório. Todos os linfonodos corados são excisados.
A
localização intra-operatória do LS resulta em insucesso em aproximadamente 20%
das dissecções, devido a dificuldades técnicas. Um refinamento desta técnica
surgiu com o uso da detecção gama intra-operatória, baseada nos métodos
descritos por Krag e cols permitindo a BLS em cerca de 98% dos casos. Vários
trabalhos já avaliaram a acurácia da identificação do LS com o corante vital
e/ou sonda de detecção gama intra-operatória, mostrando a complementariedade
dos mesmos.
Em
nosso meio, Oliveira-Filho e cols utilizaram inicialmente apenas o corante
vital e depois introduziram a utilização da detecção gama intra-operatória
(Projeto FAPESP 97/02516-0). Analisando separadamente as diferentes regiões
linfáticas encontraram 100% de encontro do LS na região inguinal tanto com o
corante vital apenas como com a detecção gama intra-operatória. É muito
importante ressaltar que a BLS utilizando apenas o corante vital requer maior
experiência e que é imprescindível a realização da linfocintilografia
pré-operatória.
Detecção
gama intra-operatória
A
detecção gama intra-operatória permite melhor localização do LS com menos
dissecção, tornando possível a realização do procedimento sob anestesia local,
como paciente externo.
O
radiofármaco utilizado na linfocitilografia é, na grande maioria dos casos, o
mesmo que será detectado no intra-operatório. Daí a importância da
linfocintilografia ser realizada próximo à cirurgia e o médico nuclear saber
quando a mesma será realizada, podendo, assim, ajustar a dose do radiofármaco
aplicada. Durante o ato cirúrgico se utiliza um detector portátil de radiação
gama. Através das leituras das escalas numéricas e orientação sonora fornecidas
pelo aparelho de DGI, o operador é guiado até a posição dos linfonodos concentrantes,
localizando-os para a exérese RS (figura
8.4).
Fig. 8.4 - Detecção gama intra-operatória “ex
vivo” de linfonodo sentinela de 4 mm.
Após a retirada dos linfonodos corados
e/ou concentrantes, os mesmos são aferidos pelo detector portátil de radiação
gama. O leito operatório é novamente rastreado pelo detector em busca de mais
linfonodos concentrantes. Só então a ferida operatória é fechada, procedendo-se
ao tratamento da lesão primária.
A
BLS propriamente dita é realizada utilizando-se o mapeamento linfático com
corante vital e/ou a detecção gama intra-operatória. Os dois procedimentos são
complementares e devem ser usados sempre que possível para aumentar as chances
de encontro do LS. A detecção gama intra-operatória permite melhor localização,
menos dissecção, e aumenta as chances de se encontrar o LS. Além disto, a
relação da medida da captação do LS com a do fundo confirma ou não o
diagnóstico do mesmo.
Na
grande maioria das vezes a captação do LS é muito maior que a do fundo (mais de
100 vezes ex-vivo). Após a retirada do LS, realiza-se a leitura do leito
operatório, devendo-se encontrar queda acentuada da captação. Se houver
captação acima de 50% do LS retirado, deve-se prosseguir a dissecção à procura
de outro LS. Após lavagem com soro fisiológico e fechamento do local onde foi
retirado o LS (na maioria das vezes não é necessário drenagem), procede-se ao
tratamento definitivo da lesão primária. Quando a lesão primária se localiza na
mesma direção da leitura da região onde se encontra o LS, deve ser realizado o
tratamento da lesão primária antes, com a finalidade de diminuir a atividade
radioativa e, assim, facilitar a identificação do LS. Outra manobra que deve
ser utilizada nestes casos, é a mudança de decúbito do paciente, para tirar o
sítio primário da direção de leitura da sonda de detecção gama.
Recomenda-se
retirar todos linfonodos azuis e de todos aqueles que apresentarem medida de
50% ou mais que a captação ex-vivo do linfonodo sentinela mais captante.
Exame
do linfonodo sentinela
O LS é submetido a exame
histopatológico convencional (HE) e a estudo imunohistoquímico pesquisando HMB
45, proteina S-100 e MART-1. Comparando-se com o exame histológico
convencional, a imunohistoquímica aumenta em cerca de 10 vezes a sensibilidade
para detecção de micrometástases.
Poucas
são as complicações do procedimento de BLS: seromas, hematomas, hipoestesia,
todos de fácil tratamento clínico. Numa pequena percentagem de casos, fica uma
tatuagem permanente pelo corante vital (cerca de 1%). Daí a importância de não
se realizar injeção de corante vital na face e pescoço. Mais raramente, alergia
ao corante vital e uma reação inflamatória no local de injeção do radiofármaco
podem ocorrer.
O
LS no MC representa com alta fidelidade o estado histopatológico de toda a
região linfática, permitindo um estadiamento patológico e uma abordagem
terapêutica cirúrgica e de adjuvância racionais.
Vários
trabalhos têm demonstrado a viabilidade de se fazer BLS mesmo quando a lesão
primária já foi retirada com margens adequadas. Nos membros, a ampliação prévia
da lesão primária prejudica menos a BLS. No tronco, o prejuízo no encontro do LS
é maior após a ampliação de margens, porém, ainda é aceitável quando a
reconstrução for feita com enxerto. A rotação de retalho prejudica muito a
drenagem linfática, interferindo no encontro do verdadeiro linfonodo sentinela.
Embora
a utilização do corante vital e da detecção gama intra-operatória se
complementem, é preciso destacar que o aprendizado da BLS com o corante é mais
lento do que com a detecção gama intra-operatória. Por outro lado a utilização
apenas do corante é muito mais econômica e pode ser suficiente em muitas
situações, como para os membros inferiores, quando a linfocintilografia
pré-operatória mostra drenagem apenas na região inguino-crural e não pélvica.
Os
critérios de inclusão dos pacientes portadores de MC para realizar a BLS mais
adotados no mundo todo são os da AJCC 2009 (“American Joint Committee on
Cancer): - todos aqueles com Breslow maior ou igual a 1,0 mm; - todos aqueles
com Breslow menor que 1,0 mm, porém, com pelo menos um dos seguintes fatores de
risco: - ulceração, Clark IV ou V e mitoses na lesão primária.
A
seguir pode-se observar o fluxograma seguido no nosso protocolo de BLS para
abordagem do melanoma cutâneo localizado.
Para
se ter uma minimização da taxa de falso negativo (recidiva na região linfática
onde o LS se mostrou normal) é preciso identificar e retirar adequadamente o LS
bem como se proceder ao exame apropriado do mesmo, incluindo o estudo
imunohistoquímico.
Os
pacientes submetidos a BLS devem ser seguidos regularmente, a cada 3 - 4 meses
nos primeiros dois anos, semestralmente no 3o, 4o e 5o anos, e, depois,
anualmente, com realização de exames complementares pertinentes. O exame
clínico destes pacientes precisa ter uma atenção especial para as regiões
linfáticas onde se realizou a BLS, em busca de recidiva. A ultrassonografia da
região linfática tem se mostrado efetiva no seguimento destes pacientes,
acrescentando achados ao exame clínico, especialmente nos pacientes obesos.